A coisa em que se põem coisas dentro

Palavras-chave: narrativas; progresso; jornada do heroi; teoria da bolsa de ficção; pensamento tentacular.

Resumo

Neste trabalho, proponho uma reflexão crítica sobre as narrativas tradicionais que

moldaram a imaginação moderna, especialmente a jornada do herói e o ideal de progresso.

Partindo de experiências pessoais atravessadas pela migração campo–cidade e pelas

expectativas de futuro herdadas de um imaginário desenvolvimentista, busco compreender

como essas estórias, tratadas como verdades históricas, estruturaram meu modo de

perceber o mundo. É nesse terreno que a Teoria da Bolsa de Ficção, proposta por Ursula K.

Le Guin, torna-se central: ao deslocar o foco da lança, símbolo das narrativas lineares,

violentas e centradas na figura heroica, para a bolsa, Le Guin oferece um paradigma

narrativo baseado no gesto de recolher, carregar e compor, em vez de conquistar e resolver.

Inspirada por autoras como Le Guin, Donna Haraway, Anna Tsing e pela força poética de Ana

Mendieta, exploro como a bolsa se torna não apenas uma metáfora, mas uma ferramenta

epistemológica, capaz de reorganizar tanto o modo de contar histórias quanto o modo de

habitar o presente. A bolsa permite narrativas que acolhem contradições, temporalidades

múltiplas e experiências diversas, rompendo com a imposição de um futuro único, guiado

pela lógica do progresso. Ao contrário da linearidade heroica, que aponta apenas para uma

direção, a bolsa abre espaço para estórias que abraçam a interconexão entre diferentes

experiências e a complexidade da vida.

Questiono a insistência da lança, como seta que aponta para a promessa de progresso, que

produz, diante da crise, o desamparo e revela o esgotamento das narrativas que nos

trouxeram até aqui. Proponho, então, a necessidade de imaginar outras formas de narrar e

existir, que se contraponham à busca reduzida à resolução, que sejam produzidas pela

capacidade de resposta (response-ability), ou melhor, de responsabilidade, e que entendam

a ficção não como uma fuga, mas como uma ferramenta para criar outros mundos possíveis.

Assim, este trabalho investiga como a bolsa, e não a lança, pode nos ajudar a inventar

futuros menos violentos, mais diversos e compartilhados.

 

Palavras-chave: narrativas; progresso; jornada do herói; teoria da bolsa de ficção;

pensamento tentacular.

Biografia do Autor

Maíra Velho, UFRGS

Artista Visual, Doutoranda em Artes Visuais e ênfase em Poéticas Visuais pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGAV/UFRGS). Possui Mestrado em Artes Visuais pela mesma instituição. Especialista em Linguagens Contemporâneas e Ensino no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS) Campus Canoas. Graduada em Artes Visuais - Desenho e Plástica pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM, RS). Atuou como Bolsista de Apoio Técnico a Pesquisa do CNPq - Nível 1A no PPGCF/UFRGS, com o INCT_3D-Saúde (2023/2024). Dedica-se à pesquisa interdisciplinar que explora as interseções entre arte e ciência, produções colaborativas e a crise geoecológica. Seus interesses artísticos abrangem diversas técnicas e mídias, como desenho, gravura, livro de artista, objeto arte e fotografia.

Angela Zanotelli Cagliari, IFRS - CAMPUS RESTINGA

 É professora de Artes Visuais no Instituto Federal de Ciências e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), campus Restinga. Atua no Ensino Médio, ensino técnico subsequente e EJA. É docente da especialização em Linguagens Contemporâneas no Ensino no campus Canoas do IFRS. Tem experiência em educação em museus e na produção de eventos culturais e exposições de arte. Trabalhou como pesquisadora documental e de obras de arte na Fundação Iberê Camargo. Possui experiência acadêmica nas universidades britânicas University of Westminster e University College London (UCL) e no museu Tate Britain. Graduada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em Artes Visuais. Especialista em Economia da Cultura pelo Programa de Pós Graduação em Economia da UFRGS. Mestra em Educação pelo IFRS no Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica.

Publicado
2025-12-11