Makunaimã e o bem-viver indígena: um olhar ecocrítico
Resumo
Pretende-se, neste trabalho, promover a reflexão sobre literatura e bem-viver, em suas relações com a espiritualidade e ancestralidade inerentes aos povos originários. Metodologicamente, tomou-se como base a pesquisa bibliográfica, com um aprofundamento nas obras Macunaíma, de Mário de Andrade, Eu sou macuxi e outras histórias, de Trudruá Dorrico, e Makunaimã: o mito através do tempo, de Débora Goldemberg et al. O estudo centra-se na relação entre bem-viver — filosofia de vida que relaciona o homem com o meio natural e cria uma (re)conexão com a Mãe Terra — e ancestralidade, como forma de oportunizar o encontro "naturezacultura", bem como buscar a justiça social, a redução das desigualdades e o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, conforme pedem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Para isso, lança um olhar ecocrítico sobre a figura mitológica Makunaimã, divindade de origem Macuxi, sob diferentes perspectivas: desde a revelada em uma das obras mais representativas do Modernismo brasileiro até as resgatadas por autores indígenas e não indígenas no século XXI. De Macunaíma a Makunaimã, busca-se refletir criticamente sobre como a literatura brasileira tem representado cosmovisões originalmente baseadas em uma íntegra relação de mutualismo com a natureza e seus pertencentes. A língua de Makunaima, ancestral dos macuxis, é (d)enunciada na narrativa de Dorrico, cujas histórias revelam como os territórios e as culturas ancestrais foram tomados pelos descendentes do deus branco. Por outro lado, a visão eurocêntrica presente em Macunaíma é um reflexo de como a sátira moldou o mito ao longo do tempo pelo viés do "herói sem nenhum caráter" e contribuiu para a construção da identidade nacional. Também é foco de análise a ressignificação do mito da personagem na obra dramática Makunaimã: o mito através do tempo, que retoma vozes silenciadas e estereotipadas a partir de seus elementos sagrados. Busca-se, assim, expor o protagonismo indígena ao sistema literário brasileiro, reconhecendo a íntima relação dos povos originários com o bem-viver, bem como a interconexão entre natureza e espiritualidade, elementos invisibilizados por colonialismos opressores.