Caminhos inclusivos no AEE: estratégias e mediações para uma estudante com tripla excepcionalidade
Resumo
Este trabalho apresenta um recorte do processo de acompanhamento pedagógico desenvolvido no Atendimento Educacional Especializado (AEE) com uma estudante do Curso Técnico em Química Integrado ao Ensino Médio, cuja trajetória é marcada por um perfil neurodivergente de tripla excepcionalidade: Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD). A coexistência dessas condições demanda ações pedagógicas específicas que articulem o potencial cognitivo elevado com o manejo das dificuldades relacionadas à atenção, à autorregulação e à convivência social. A pesquisa parte do questionamento: como o AEE pode favorecer a aprendizagem e o bem-estar de uma estudante neurodivergente com tripla excepcionalidade, considerando suas potencialidades e barreiras? Para responder a essa questão, o estudo teve como objetivos mapear desafios e potencialidades observados nos atendimentos, testar recursos lúdicos que favorecessem o foco e a persistência, e propor estratégias pedagógicas personalizadas que contribuíssem para o desenvolvimento integral da estudante. A metodologia baseou-se em uma sequência de atendimentos presenciais e remotos, conduzidos com base em escuta sensível, diálogo mediado e observação participante. As intervenções envolveram a aplicação de jogos estruturados, como Papo Reto, Desafio da Colmeia, Triminó, Tetracores, Jogo dos Pontos, Resta Um e Memória de Pinos. Esses recursos foram utilizados para estimular processos de atenção seletiva, planejamento, percepção visoespacial, flexibilidade cognitiva e regulação emocional. Cada encontro foi registrado de forma sistemática, permitindo o acompanhamento longitudinal da evolução da estudante. Os resultados apontam desempenho expressivo em raciocínio lógico e percepção espacial, revelando elevado potencial analítico. Entretanto, verificaram-se oscilações atencionais em ambientes ruidosos, sensibilidade à frustração em atividades com pressão temporal e dificuldades na mediação de interações em grupo. Observou-se, ainda, que ambientes previsíveis, instruções graduais e feedbacks constantes favoreceram o engajamento e a segurança da estudante durante as atividades. A fundamentação teórica apoia-se em autores como Vygotsky e Piaget, que compreendem o jogo e a mediação como eixos do desenvolvimento cognitivo e social, e em Kishimoto, que destaca o valor da ludicidade como via de aprendizagem significativa. Conclui-se que a adoção de rotinas estruturadas, jogos com valor metacognitivo e estratégias de apoio emocional contribui para a autonomia, a regulação comportamental e o fortalecimento das aprendizagens. O AEE, nesse contexto, se consolida como um espaço de mediação, escuta e pertencimento, essencial para que a estudante possa desenvolver plenamente suas potencialidades e enfrentar com confiança os desafios escolares e sociais.